Ele, o primeiro homem que leu todos os meus textos. T-o-d-o-s. Todinhos. Sem faltar um. Eu admirava isso nele. As pessoas falavam: olha só para ele. Quando terminam, começa com outra. Olha só para ele. Tudo bem que é bonito, tudo bem que é charmoso, tudo bem que é o teu tipo de homem, mas olha só para ele. Eu olho para ele, sim. Ele é charmoso, sim. Ele é bonito, sim. Ele não gosta de mim, não. Mas e daí? Ele lê os meus textos! Admiro muito isso. Isso é muito importante para mim. Ele lê e não tem medo. Ele lê e diz que gosta – e talvez nem goste. Ele lê. Ele conhece-me. Nada mais importa.
Eu tinha uma dificuldade imensa em me amar. Eu lutava demais por ele e ele lutava para colocar a minha auto-estima no fundo da minha alma, do meu poço. O poço mais fundo que eu já vi. Eu gostava de mim, até o conhecer. Não é que eu tivesse deixado de me amar, porque não deixei. Eu passei foi a amá-lo mil vezes mais a ele do que a mim mesma. Eu não era o que ele merecia, sei entender isso. Mas ele lia todos os meus textos, e isso não me deixava desistir de tudo o que construímos. Discutimos algumas vezes sobre a minha louca e obsessão pela escrita e quando terminávamos ele sempre me dizia vai-morre-aí-a-escrever. Tudo bem, eu morro, dizia ao mesmo tempo que ria. Mas eu sabia que nunca morreria a escrever. Porque ele sempre lia e sempre me salvava. Se bem que “morrer” é apenas um termo.
Já separados, ele continuava a ler os meus textos. E quando lia, avisava-me. Olha, estou a ler este teu texto (e mandava um trecho). Está bonito. Obrigada, respondia, querendo dizer: guarda-o bem no coração. Cada palavra é para ti. Na semana seguinte, lia outro e dizia novamente. Nos dias de hoje, já não diz nada. O primeiro homem que leu todos os meus textos faz tempo que deixou de ter interesse em ler o que escrevo. Faz tempo que deixou de ligar só pra me dizer olha-li-o-teu-texto. Faz tempo que se esqueceu de mim. Faz tempo que não quis mais lembrar. Então agora, eu posso dizer-lhe realmente: morri a escrever e tu não me salvaste.
Tenho um vasto desejo de me apaixonar por alguém que leia o que eu escrevo. Mesmo que não seja recíproco. Mesmo que doa tanto a ponto de me fazer escrever mais. Mas esse alguém não existe, nunca existiu.
ResponderEliminarSabe Danniela, você morreu a escrever, mas deixou esse texto vivo; tão vivo que pude senti-lo. E é incrível essa sua capacidade! E ainda que o Homem não leia mais os seus textos, você acabou de transformar a memória dele em algo eterno. Porque os que escrevem, tem esse poder, pois escrever é uma maneira de não deixar os momentos, pessoas e sentimentos se perderem. Você tem isso. E o fez de maneira espetacular!
Parabéns e estou a te seguir. Beijos, cuide-se.