terça-feira, 24 de abril de 2012

O homem que lia os meus textos

Ele, o primeiro homem que leu todos os meus textos. T-o-d-o-s. Todinhos. Sem faltar um. Eu admirava isso nele. As pessoas falavam: olha só para ele. Quando terminam, começa com outra. Olha só para ele. Tudo bem que é bonito, tudo bem que é charmoso, tudo bem que é o teu tipo de homem, mas olha só para ele. Eu olho para ele, sim. Ele é charmoso, sim. Ele é bonito, sim. Ele não gosta de mim, não. Mas e daí? Ele lê os meus textos! Admiro muito isso. Isso é muito importante para mim. Ele lê e não tem medo. Ele lê e diz que gosta – e talvez nem goste. Ele lê. Ele conhece-me. Nada mais importa.

Eu tinha uma dificuldade imensa em me amar. Eu lutava demais por ele e ele lutava para colocar a minha auto-estima no fundo da minha alma, do meu poço. O poço mais fundo que eu já vi. Eu gostava de mim, até o conhecer. Não é que eu tivesse deixado de me amar, porque não deixei. Eu passei foi a amá-lo mil vezes mais a ele do que a mim mesma. Eu não era o que ele merecia, sei entender isso. Mas ele lia todos os meus textos, e isso não me deixava desistir de tudo o que construímos. Discutimos algumas vezes sobre a minha louca e obsessão pela escrita e quando terminávamos ele sempre me dizia vai-morre-aí-a-escrever. Tudo bem, eu morro, dizia ao mesmo tempo que ria. Mas eu sabia que nunca morreria a escrever. Porque ele sempre lia e sempre me salvava. Se bem que “morrer” é apenas um termo.

Já separados, ele continuava a ler os meus textos. E quando lia, avisava-me. Olha, estou a ler este teu texto (e mandava um trecho). Está bonito. Obrigada, respondia, querendo dizer: guarda-o bem no coração. Cada palavra é para ti. Na semana seguinte, lia outro e dizia novamente. Nos dias de hoje, já não diz nada. O primeiro homem que leu todos os meus textos faz tempo que deixou de ter interesse em ler o que escrevo. Faz tempo que deixou de ligar só pra me dizer olha-li-o-teu-texto. Faz tempo que se esqueceu de mim. Faz tempo que não quis mais lembrar. Então agora, eu posso dizer-lhe realmente: morri a escrever e tu não me salvaste.

O fim não é um tempo

Quando as minhas relações terminam, eu fico sempre de pé atrás. Ah, amanhã nós ficamos bem, de novo. Nós mais logo voltamos. Daqui a umas semanas, ele volta e vai correr atrás e comer na palma da minha mão, como se costuma dizer. Eu não consigo colocar o pé no futuro, quando tudo acaba. Eu não aceito que as minhas relações acabam. Eu sempre acho, lá no fundo, que ele continua a adorar-me e que está, também, a sentir saudades. E nem adora. Em certas relações, nunca adorou. Mas eu insisto e continuo com os meus pensamentos de que um dia iremos começar do zero. E nem sempre isso acontece. Há uma hora, em que isso deixa de acontecer. A verdade é essa. Eu fico sempre naquela do “e se?”, porque eu sempre acho que não era hora de acabar com tudo.

Às minhas amigas, eu ofereço sempre o meu ombro para elas chorarem as suas perdas, os meus conselhos que nem sei se servem de algo, a minha paciência (que apesar de serem amigas, também dão cabo dela), a minha amizade. Para quê ficar assim? Não adianta. Essa relação já estava a falhar há imenso tempo. Traições, demasiadas mentiras, ciúmes exagerados, falta de cumplicidade. Amiga, assim, dessa maneira, não há história de amor que resista! E elas choravam. E eu consolava. Não chores, ele não merece. Tens que aceitar que acabou. Eu dizia aquelas frases que já toda a gente conhece. Elas sofriam por algum tempo e depois, ficavam ótimas. Mas eu não sou assim. Eu não aceito. E não aceitando, sofro para toda a vida. E depois de outra relação, ainda sofro por causa da outra e da outra e da outra. Agora eu pergunto-me: quando será que eu vou conseguir oferecer um ombro amigo a mim própria e aceitar, friamente, que as minhas relações também acabam?

Eu não sei. Acho que, para mim, as minhas relações nunca vão terminar. Eu sempre me vou lembrar de um “nós”, esquecendo que virou um eu-e-tu. Eu sempre vou recordar o primeiro beijo, o terceiro, o quarto, o quinto, mas sempre vou esquecer o último, para não achar que terminou. E é por isso. É por isso que eu acho que as minhas relações não acabam nunca. Falha-me a memória, e então, se na minha memória, não está presente um último beijo, não houve despedida. Apenas demos um tempo. E eles sabem, eu espero. Sempre esperei. Mas a verdade cruel, é que sempre que me lembro de todos os “nós” que já vivi, esquecendo o eu-e-tu que se tornaram, eu esqueço, também, que não foi um tempo, foi o fim.

Para quê mudar?


Nós sempre vamos tentar que dê certo. Vamos inventar desculpas, novos horários, novos encontros, novas pessoas, novos empregos, novas atividades, novos interesses, novos estudos, novos livros, novos amigos, novos interesses, novas vidas. Mas, o problema, é que na vida, tudo já está traçado, desde o primeiro dia. Então, não vale a pena querer mudar só porque sim, sem razão. Mas, se pelo contrário, tu achas que tens uma razão óbvia, tudo bem, muda. Para melhor, sempre. Mas quando a resposta ao “por que mudaste?” é “porque sim”, mais vale estarmos quietos e deixarmos andar.

Eu achava que tinha uma razão mais-que-óbvia para mudar, então, eu tentei virar-me do avesso. Eu que sempre fui doce, quis virar amargada. Eu que sempre estive no prazo de validade para ele, quis virar azeda e estragada. Eu quis ser uma pessoa totalmente errada, só para ele gostar de mim. Eu quis ser uma pessoa demasiado fria, só para ter a sua atenção. Eu quis ser um nada, para que ele me tornasse o seu tudo. Eu quis deixar de amá-lo, um pouco, só para ele me gostar, nem que fosse um pedacinho. Eu quis dar um passo para trás, só para ele avançar e pegar na minha mão. Eu quis muita coisa, só para o ter. Mas depois disseram-me: quem gosta, vai gostar como tu és. E, então, foi aí que eu desisti de tentar ser algo que ele pudesse gostar. Porque, na verdade, eu só queria que ele gostasse de mim, tal como eu era.

Contudo, eu tinha que ficar com ele. Eu queria tanto. Eu amava-o tanto. Desse por onde desse, nós tínhamos que ficar juntos. Eu não iria desistir. Mas ele era tão estranho! Ele nunca me entendeu. Nunca, nunca entendia. E se entendia, fingia não entender. Eu dizia para ele ligar às três da tarde, ele ligava às três da madrugada. Eu marcava um jantar, ele aparecia para almoçar. Ele nunca entendia. Combinávamos ir ao cinema, ele aparecia como se fossemos para um festa. Eu perguntava-lhe como estava a sua mãe e ele respondia-me: a-minha-irmã-está-ótima-obrigada. Ele nunca entendia. Eu dizia para ele ficar, ele ia. Arrumava as roupas e partia. Eu dizia para ele ficar lá, onde estava, e ele voltava. Desfazia as malas e ficava. Ele nunca entendia. Às vezes, eu só pensava: oh meu Deus, ele é ignorante? Mas depois, eu ria e pensava: mas se ele é tão bonito deste jeito, para quê mudar?